
Hardware como ideologia: uma entrevista com Austin Federa
Introdução
Blockchains não funcionam à base de esperança. Elas funcionam com cabos, consenso e a convicção silenciosa de pessoas que constroem sistemas que o mundo não consegue ver.
Austin Federa passou a maior parte da carreira transitando entre o visível e o invisível. Em marketing e comunicação — desde o início de sua carreira no Boston Globe até a construção de narrativas sobre a Solana —, a arquitetura é retórica: erguer vigas de significado, conectá-las por meio de histórias e torcer para que a estrutura resista aos olhos sempre atentos do público. No hardware, a arquitetura é literal: silício, topologia e latência, com o trabalho real acontecendo fora de vista.
Em uma era na qual impérios digitais ascendem e caem conforme a força de suas fundações invisíveis, o hardware não é apenas maquinário — é a ideologia encarnada. Ele transcende os meros circuitos para determinar silenciosamente como nos conectamos, computamos e criamos. Federa foi um dos principais arquitetos da forma como a blockchain mais rápida do mercado se apresentou ao mundo, atravessando períodos turbulentos como chefe de estratégia da Solana Foundation. Agora, como cofundador da DoubleZero, ele trocou as mensagens pelos mecanismos e está construindo uma nova Internet criada especificamente para a próxima era dos sistemas distribuídos.
Eu queria entender o que acontece quando um contador de histórias se torna arquiteto — quando a pessoa que moldou a identidade pública de um protocolo passa a moldar sua infraestrutura privada. Esta entrevista trata dessa transição: da clareza narrativa à clareza de rede.
A conversa foi editada e condensada para maior concisão.
Entrevista
Origens e visão de mundo
Ichigo: Quando você tinha quinze anos, causou uma grande agitação na Apple ao fazer seu notebook Dell executar uma compilação protegida do OS X. Essa foi sua primeira experiência de verdade mexendo com hardware? O que despertou seu interesse por hardware?
Federa: Sim, talvez este seja um bom ponto de partida para mim: tenho uma forma de dislexia entre moderada e leve, e isso tornava coisas como aprender um idioma estrangeiro muito, muito difíceis. Tentei aprender espanhol no ensino médio, mas simplesmente... não funcionou. Na faculdade, acabei estudando latim porque, sinceramente, era mais fácil — não esperavam que você falasse o idioma, o trabalho era de tradução. Esse tipo de coisa funcionava melhor para mim.
O mesmo aconteceu com programação. Há partes que consigo assimilar e entender, mas simplesmente não nasci para ser um ótimo programador. Se você me der uma janela de código em branco, eu simplesmente... não vai acontecer. Mas o hardware parecia diferente. Especialmente aos quinze anos, quando seu cérebro ainda está se desenvolvendo. Parecia mais concreto, mais estruturado. Francamente, há menos variáveis em comparação com software.
Então, sim, no ensino fundamental, eu montava meus próprios computadores para jogos. Até tinha algo que eu nem chamaria de negócio, mas montei e vendi alguns sistemas para outras pessoas. Eram máquinas refrigeradas a água, na época em que isso realmente era difícil de montar. Hoje, você pode simplesmente encomendar as peças pela Internet, mas naquela época era preciso descobrir tudo sozinho.
Eu sempre fui muito bom em gerenciar software aplicado a um problema específico ou em juntar o código de outras pessoas para criar algo útil. Mas o hardware era o que parecia natural, aquilo em que eu realmente conseguia encaixar as peças. Foi isso que me conquistou.
Apesar desse interesse inicial, você fez um desvio acadêmico. Estudou ciência política, estudos ambientais e economia — áreas que normalmente não são associadas a hardware. O que atraiu você para essas áreas e como elas ajudaram a moldar sua forma de pensar hoje?
Quando eu era mais novo, provavelmente nos primeiros anos do ensino fundamental, era uma criança com uma mente muito voltada para a ciência. Eu gostava muito de ciência. Estudei em uma escola incomum — não exatamente Waldorf, mas com conteúdo acadêmico e uma grande propriedade para explorar. O recreio era divertido: represávamos riachos e causávamos todo tipo de problema. Foi uma experiência diferente, e minha cabeça estava muito voltada para a ciência naquela época.
Quando entrei nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, comecei a explorar mais as ciências humanas. Isso passou a ser interessante para mim, algo de que eu realmente gostava e, quando cheguei à faculdade, era o que eu queria fazer. Estudei em uma faculdade de artes liberais e não entrei com qualquer pretensão de me tornar engenheiro.
Ironicamente, muitos dos meus amigos entraram com essa intenção — a maioria fez cursos de engenharia, mesmo em faculdades de artes liberais. Um dos caras que trabalha comigo hoje, Ben, estudou comigo no ensino médio. Ele acabou cursando engenharia em Dartmouth. Então, mesmo naquele círculo, eu estava cercado por pessoas que se aprofundavam em áreas técnicas, enquanto eu estudava ciência política, estudos ambientais e economia — basicamente uma graduação em blockchain.
Para mim, engenharia nunca pareceu “fácil”, mas os problemas pareciam mais objetivos. As ciências humanas e sociais pareciam mais confusas, mais abertas. Era isso que me atraía.
Francamente, acho que, se você tiver o luxo de fazer isso, a faculdade é o único momento da vida em que você está livre de julgamentos e tem a coragem de simplesmente explorar suas curiosidades com rigor acadêmico. Então, aproveitei essa oportunidade.
Na sua biografia, há esta frase: “Tudo é computador”. Esse mantra sugere uma visão de mundo na qual o hardware não é apenas um conjunto de ferramentas, mas algo mais fundamental para a realidade. Como experiências iniciais, como o hack da Apple, e depois sua formação acadêmica moldaram essa filosofia?
Acho que só fui entender tudo isso de verdade há uns três ou quatro anos. Eu estava conversando com Kevin Bowers — e não quero trazer a conversa de volta à Solana tão rapidamente —, mas uma coisa que sempre senti é que a definição de hardware e software é meio arbitrária.
Entramos em uma fase na qual você nem pensa mais no hardware — simplesmente executa as coisas em instâncias virtualizadas. Em certo sentido, isso é elegante, mas, em outro, parece... não ser como os computadores realmente funcionam. Voltando ao projeto Hackintosh, por exemplo, aquilo girava em torno de conjuntos de instruções. Eu precisava enganar uma CPU da Dell para fazê-la pensar que tinha instruções que não tinha e, às vezes, ela simplesmente travava por completo. Foi um daqueles momentos em que você percebe que a linha entre software e hardware não é tão nítida quanto pensamos.
Também cresci lendo muita ficção científica — livros como Accelerando, de Charles Stross —, nos quais uma única descoberta na computação muda a trajetória de tudo. Isso moldou minha forma de pensar sobre sistemas: precisamos prestar mais atenção ao que acontece nas camadas inferiores, porque é ali que está a verdadeira alavancagem.
Muito disso veio simplesmente de anos de aprendizado informal relacionado a hardware. Minha filosofia geral é que, se você aprender o suficiente sobre um assunto, acabará entendendo. O aprendizado estruturado e sequencial dos livros didáticos nunca funcionou muito bem para mim — eu sempre sentia que faltava alguma coisa. Mas, se você continuar contornando o problema, em algum momento a visão mais profunda se forma.
É até engraçado, mas as aulas de matemática nunca fizeram tanto sentido para mim quanto faziam para algumas pessoas. Em parte, era difícil porque elas partem do pressuposto de que estamos ensinando uma versão muito básica e que vamos nos aprofundar cada vez mais. Só quando fiquei muito mais velho pensei: “Ah, tudo está completamente errado e isso não tem nada a ver com como a matemática realmente funciona.” É apenas a forma como a ensinamos há algumas centenas de anos. Deixamos de lado alguns conceitos fundamentais, e a matemática se torna infraestrutura. É um lembrete de que até as coisas abstratas acabam se concretizando na forma como os sistemas realmente funcionam.
Ah, concordo cem por cento. Quando parei para aprender sozinho a matemática por trás de ZK, fiquei me perguntando por que nunca tinham me ensinado metade daquele conteúdo. Mesmo só tentando ler, você encontra todas aquelas letras estranhas e depois percebe que aquele “E” esquisito é apenas um loop for. Há uma série de pressupostos de conhecimento que criam problemas de comunicação.
Da comunicação aos protocolos
Esta é uma boa transição porque, durante muito tempo, seu foco esteve na comunicação. Profissionais de comunicação são obcecados por clareza, enquanto engenheiros de hardware são obcecados por latência. Você vê algum paralelo entre criar hardware de alto desempenho e construir narrativas eficazes?
De certa forma. Eu diria que a maior diferença é que ambos os sistemas precisam funcionar, mas o lado tecnológico precisa funcionar de maneira muito mais literal do que o lado da comunicação.
No lado narrativo, você pode criar uma história sobre um produto, um candidato ou um trecho de código que não reflete o que aquilo realmente faz. A Ripple é um exemplo clássico — as pessoas diziam: “Bem, algum dia todos os bancos vão precisar disso.” E a resposta é: tudo bem, talvez... mas qual é o caminho concreto para chegar a esse resultado?
Você também vê isso o tempo todo na sociedade. O slogan da COVID, achatar a curva, é um ótimo exemplo. É uma narrativa extremamente marcante, mas achatar a curva não é um estado final — isso não resolve a COVID. O mesmo vale para slogans de protestos como cessar-fogo agora. Um cessar-fogo é, por definição, temporário. Funciona como grito de mobilização, mas não representa o quadro completo. Narrativas podem ser incrivelmente marcantes mesmo quando não correspondem à realidade subjacente.
O mesmo aconteceu com dinheiro ultrassônico. A ideia nunca fez muito sentido tecnicamente, mas deu às pessoas algo em torno do qual se mobilizar. Portanto, a estrutura narrativa tende a ser muito diferente da estrutura técnica de um produto.
Dito isso, você precisa pensar na história que deseja que seu produto conte antes de construí-lo. A Amazon tem aquela famosa frase de que você deve escrever o comunicado à imprensa antes de escrever o resumo do produto. Ela existe há muito tempo, mas as pessoas se esquecem. É preciso começar com intencionalidade. Acho que grande parte da engenharia não começa com intencionalidade. Começa com uma série de problemas isolados que alguém tenta resolver, e você acaba com várias soluções remendadas em vez de algo mais coerente.
Sinceramente, é por isso que a melhor engenharia muitas vezes acontece em tempos de guerra. Nesses momentos, você começa com requisitos rígidos: precisamos de um avião que saia da pista e chegue a 40 mil pés em menos de dez minutos, tenha este alcance e voe a esta velocidade. Não importa se o avião é feio — ele atende aos requisitos, e você constrói mil unidades. Esse é um tipo de engenharia muito diferente de trabalhar em problemas sem uma história clara sobre o que você está tentando alcançar.
Parece que grande parte do trabalho de criar narrativas eficazes ou hardware de alto desempenho é quase invisível por definição. Como tornar algo visível o bastante para atrair desenvolvedores, mas invisível o suficiente para que a experiência pareça fluida ao usuário final?
Eu diria que pouquíssimas coisas que realmente mudam o mundo se enquadram nessa categoria de invisíveis por definição. Quando a Internet surgiu, por exemplo, causou um enorme impacto. As pessoas precisaram aprender sobre linhas telefônicas e acopladores acústicos estranhos — produtos difíceis de usar, mas impulsionados por uma tecnologia transformadora.
Você pode dizer o mesmo sobre GPUs. Quando a NVIDIA lançou CUDA, não era exatamente um nome conhecido por todas as famílias, mas se tornou conhecido entre engenheiros. Todos conheciam a Sun Microsystems por motivos parecidos. Esses momentos não foram apenas otimizações — foram mudanças de patamar.
Compare isso à troca de fornecedores de hardware: Cisco versus Juniper versus Arista. Há diferenças importantes, sem dúvida, mas elas são, em sua maioria, incrementais. O que chama a atenção do público é algo tão disruptivo que não pode ser ignorado. É por isso que todos conhecem o ChatGPT e, antes dele, o Bitcoin.
Então, para mim, depende: se você está criando uma otimização, talvez ela não precise ser “vista”. Mas, se for uma verdadeira inovação, a visibilidade acontecerá por conta própria. As pessoas ficam sabendo porque ela faz algo que antes era fundamentalmente impossível — como a SpaceX capturando um foguete com um par de hashis.
Falando mais sobre essas mudanças disruptivas, você trabalhou na Solana Labs e, depois, na Solana Foundation. Antes disso, tinha uma experiência mais voltada para marketing e comunicação, do Boston Globe à Bison Trails. Como você chegou à Solana? O que atraiu você?
Sim, essa é uma boa pergunta. Eu me formei na faculdade em 2013 e pensei se queria ou não fazer doutorado. Naquele momento, eu procurava algo um pouco mais prático.
Lembro-me de acessar o site do NBER, onde todos os artigos de economia são publicados. Alguém havia escrito um artigo sobre o próprio NBER, o que é a coisa mais metalinguística possível nas ciências sociais. Olhei para ele: havia três autores e apenas cinco downloads. Você pensa: nossa, ninguém lê essas coisas. Tipo, será que este trabalho está realmente fazendo alguma diferença?
O jornalismo foi uma espécie de parada temporária para mim. Acredito que o engajamento cívico seja muito importante para a sociedade, e isso exige certo grau de conhecimento e conscientização. Trabalhar no Boston Globe me deu a oportunidade de ver como as narrativas são criadas em tempo real, e pude ajudar a divulgar muitas informações para que as pessoas formassem uma opinião sobre o mundo e fossem mais bem informadas. Foi o primeiro lugar em que pensei: posso realmente fazer um trabalho importante aqui.
Mas descobri que muitas das outras pessoas com quem eu trabalhava não eram particularmente boas, no sentido de que não encaravam o trabalho como parte de uma grande missão. Não quero trabalhar em um lugar onde as pessoas não pareçam profundamente envolvidas com o que fazem.
Isso foi parte do que me atraiu para as startups. No mundo das startups, as pessoas são obcecadas — às vezes, de forma pouco razoável —, mas você não questiona se elas se importam. Todos avançam rapidamente, todos tentam tirar alguma coisa do papel. Essa energia era muito diferente de tudo que eu havia sentido antes.
Então, saí do jornalismo e fui para a comunicação, depois para campanhas, consultoria e, por fim, tecnologia. Meu primeiro emprego de verdade em tempo integral no setor de cripto foi na Republic, trabalhando no lançamento da Republic Crypto, que é muito voltada para investimentos. Depois, fui para a Bison Trails, uma empresa de infraestrutura de blockchain que acabou se tornando a Coinbase Cloud. Algumas pessoas realmente incríveis saíram daquela organização.
E então, bem, eu não queria trabalhar para a Coinbase — simplesmente não parecia ser a escolha certa. A Bison Trails estava sendo adquirida, eu ficaria sem emprego em breve e estava participando de entrevistas com várias Layer 1s e Layer 2s.
Voltando um pouco, a Bison Trails operava cerca de 65% da rede Ethereum 2.0 naquela época, durante a fase da Beacon Chain. Eu estava profundamente envolvido com o roadmap do ETH 2.0 quando ele seria lançado com 56 shards, e eles planejavam escalar para mil shards antes de abandonarem essa parte do roadmap.
Eu não parava de pensar: como a Uniswap vai funcionar em um ecossistema fragmentado? Teremos um shard da Uniswap? Um shard da Aave? Como tudo isso vai funcionar? Havia muitas explicações vagas sobre bridges e que descobriríamos depois. Sabe, todo esse tipo de coisa. Eu continuava fazendo alguma versão dessa pergunta a todos os fundadores com quem conversava nas entrevistas. Todos estavam implementando alguma forma de sharding.
Lembro-me de perguntar ao Toly como os shards funcionariam. Ele riu e disse que jamais funcionariam — tudo precisa estar em uma única máquina de estado global. Essa foi a primeira visão plausível que encontrei sobre como seria de fato o futuro dos shards, e não era apenas um grupo de profissionais de software dando respostas vagas e dizendo que resolveríamos depois. Foi nesse momento que pensei: não faço ideia se a Solana terá sucesso ou não, mas vou aprender muito aqui.
Construindo a DoubleZero
É claro que sua trajetória na Solana fala por si só. Você acabou deixando a Solana Foundation em dezembro de 2024 para cofundar a DoubleZero. Houve um único momento de revelação que convenceu você a criar um novo protocolo voltado para infraestrutura de rede?
Não houve um momento específico. Superamos o colapso da FTX, e durante algum tempo aquela foi uma situação que exigiu o esforço de todos. Mas, no início de 2024, a Foundation fazia um bom trabalho, porém estava se tornando menos relevante para o ecossistema, o que é um sinal de sucesso, conforme a influência da Foundation diminui.
O trabalho estava entrando mais em uma fase de manutenção, dando continuidade à missão. Pessoas como Dan Albert descrevem isso como a necessidade de manter gente por perto para garantir estabilidade no longo prazo. Para mim, a pergunta era: quero fazer isso ou tentar fundar e construir algo novo?
Eu não queria criar algo que competisse com a Solana nem apenas mais uma aplicação sobre ela. Não há nada de errado nisso, mas passar da liderança de estratégia na Foundation para a criação de algo como um protocolo DeFi geraria um problema de servir a dois senhores — seria difícil abandonar a função anterior.
Ao pensar em se tornar fundador, você precisa perguntar: por que estou fazendo isso? É pela estética ou por outra coisa?
Grande parte se resume a isto: você é melhor nisso do que qualquer outra pessoa que esteja tentando agora? Fundadores de startups não são os melhores do mundo — se fossem, estariam em outro lugar. A questão é essa combinação de oportunidade, vocação e momento certo.
As conversas sobre Firedancer me convenceram de que a Solana precisava ir além da Internet pública para alcançar seu potencial. Foi com esse objetivo que começamos a construir a DoubleZero.
Para quem não conhece, você pode explicar a arquitetura de dois anéis da DoubleZero? Quais são os problemas gerais que ela resolve? Tenho interesse em saber como a DoubleZero decidiu usar essa arquitetura. Quais alternativas foram consideradas?
Você pode pensar da seguinte forma: em que as blockchains são realmente ruins? Gosto de começar analisando os sistemas, não pelo que deveriam fazer, mas pelo que fazem mal. Blockchains são ruins em propagar estado e compartilhar recursos.
Quanto ao compartilhamento de recursos: se você executa uma aplicação na AWS ou no Google Cloud, conta com toda a infraestrutura de segurança cibernética dessas empresas para proteger você — o data center é sua camada de defesa. O objetivo da DoubleZero é aproveitar o compartilhamento de recursos, fazendo com que qualquer ataque avassalador se torne um problema para o data center ou ISP.
A Solana pode ter o desempenho prejudicado por ataques DDoS que não afetariam a Netflix nem o Bank of America. Se implantarmos camadas de defesa na frente de cada validador, teremos uma relação de um para um. Mas uma única caixa de defesa FPGA pode proteger dezenas de validadores downstream. Sem isso, seriam necessários FPGAs de US$ 20 mil em cada validador, o que é inviável — e isso não melhora a conectividade.
A arquitetura de dois anéis surgiu de dois objetivos:
- Proteger validadores contra spam, assinaturas inválidas e lixo
- Acelerar a camada de rede
Acelere a rede sem defesa e você terá apenas criado uma ferramenta de DDoS melhor. Adicione defesa sem velocidade e você só a tornará mais resiliente, não mais rápida. Queremos um milhão de TPS na mainnet com 2 mil nós em todo o mundo — é aí que entra a fibra.
Além dos tubarões, quais são os maiores riscos técnicos ou questões em aberto que a DoubleZero precisa enfrentar para ajudar a alcançar o tão esperado milhão de TPS com 2 mil nós em todo o mundo?
Há vários. Isso é algo que eu gostaria que fosse mais aceitável no setor. Muitas pessoas não falam sobre os problemas que ainda precisam resolver. No nosso caso, quando você passa para a infraestrutura física, é preciso ter pessoas conectando cabos e cuidando de outros pequenos detalhes que podem desencadear eventos no nível do protocolo.
Uma das principais questões para nós é testar a integridade dos links. Na Web2, você contrataria terceiros para conectar dispositivos, fazer medições e emitir uma certificação de velocidade do cabo. Por motivos óbvios, não queremos isso, então estamos criando um sistema no qual o software na minha fibra executa um teste de velocidade na sua. É um problema de verificabilidade que ocorre no mundo real. Isso porque, no software, você tem as belas propriedades das assinaturas e da segurança criptográfica, mas nada disso se aplica ao mundo físico.
Um dos desafios que enfrentamos nessa área é como fazer isso da maneira mais trustless possível e, ao mesmo tempo, entregar cem vezes o desempenho que você obteria na Internet pública. Uma boa vantagem que temos é que não há fundos armazenados na rede DoubleZero. Ela não é uma rede de contratos inteligentes. Nesse sentido, não temos a custódia dos fundos dos usuários e, por isso, não precisamos dos modelos de segurança econômica necessários — ou que as pessoas acreditam ser necessários — na Ethereum ou na Solana.
Há muitas outras coisas que precisamos fazer. Também estamos criando dados priorizados, como um Flash Boys para blockchain no estilo HFT, o que será muito legal.
Visão de futuro e reflexões pessoais
Olhando para o futuro, o que está no roadmap da DoubleZero para os próximos um ou dois anos? O que você gostaria de alcançar?
A prioridade número um é conseguir o máximo possível de stake na rede, para que os desenvolvedores de protocolos possam ampliar ainda mais os limites. O Santo Graal: dentro de dois anos, a Solana executar pelo menos 100 mil — ou um milhão — de TPS. Se isso não acontecer, será uma derrota.
Com certeza. Grande parte desta conversa se concentrou em blockchains. Qual caso de uso fora de blockchain você está animado para ver, ou gostaria de ver, implementado na DoubleZero?
Já temos um pouco disso, o que é muito legal. A Shelby é um sistema de armazenamento que concorre com S3 e Cloudflare R2, criado na DoubleZero. É um projeto de token, mas, em sua essência, é um armazenamento flash rápido e descentralizado. É interessante porque agora temos muitas aplicações que podem realmente competir com sistemas centralizados.
Também há interesse em treinamento de IA e dados de workloads — isso é mais difícil, mas empolgante. A OpenAI é, na verdade, uma das maiores usuárias de fibra submarina para conectar data centers, então definitivamente há algo a explorar nesse campo.
Olhando para trás, você já desempenhou muitos papéis: entusiasta, comunicador, estrategista e fundador. O que gostaria de ter sabido mais cedo em sua carreira?
Quando eu era mais novo, concentrava-me demais no que as pessoas achavam que eu deveria fazer ou nas expectativas da sociedade. Há aspectos positivos nisso — grande parte do problema com a cultura moderna dos influenciadores vem da falta de uma base moral ou filosófica. Mas você precisa estar disposto a correr riscos.
Nada dura tanto quanto parece. Quando saí da faculdade, um senador dos EUA me aconselhou a cursar direito. Na época, eu não tinha perfil para isso, mas deveria ter reconsiderado mais tarde. Não me arrependo de não ter ido, mas foi um caminho que alguém disse que eu seria capaz de seguir, e eu não acreditei. Em retrospecto, poderia ter sido interessante.
Perguntas rápidas
Qual é a tecnologia mais “invisível” que você admira?
Sistemas de controle predial — os equipamentos HVAC de nível industrial que mantêm os edifícios na temperatura e umidade perfeitas. Eles não recebem o reconhecimento que merecem, mas são um excelente exemplo de tecnologia melhorando vidas de forma invisível.
Qual é o problema humano ou organizacional mais difícil na construção de uma infraestrutura duradoura?
Depende do nível. Normalmente, é o design de incentivos: as falhas de infraestrutura decorrem de horizontes de tempo ou pressupostos orçamentários diferentes. No mundo físico, como no caso de estradas, vêm da falta de compreensão antecipada do sistema — as fundações não foram construídas para aquele volume. No software, a ameaça é a complacência.
Veja a United Launch Alliance em comparação com a SpaceX: a ULA fez tudo conforme as regras, mas com base em falsas premissas de segurança motivadas pela aversão ao risco da NASA. Elon mudou o jogo ao aceitar o fracasso em uma estrutura privada.
A estrutura responsável por construir algo normalmente não recebe o devido reconhecimento pela forma como influencia o resultado. É como aquele velho ditado: “Mostre-me um organograma e eu mostrarei suas prioridades organizacionais.”
Qual é a coisa mais superestimada na Solana atualmente?
Não tenho certeza de que algo esteja superestimado no momento. Seis meses atrás, eu teria dito memecoins, mas agora o entusiasmo parece proporcional.
Por outro lado, acho que as pessoas estão pensando no curto prazo demais quando o assunto são os Estados Unidos. Acredito muito que os EUA podem se tornar o polo mundial de cripto. Mas vejo protocolos abandonando suas fundações internacionais para se tornarem uma 504 ou uma DUNA (associação descentralizada sem personalidade jurídica e sem fins lucrativos). E, cara, imagine se tivermos a presidente AOC em 2028? Em retrospecto, isso vai parecer uma péssima decisão.
As pessoas nos EUA e na Solana estão muito otimistas em relação ao atual governo. Tenho grandes expectativas e acho que ele fez um trabalho incrível, especialmente com as mudanças na SEC. Mas as mudanças que não forem aprovadas pelo Congresso podem simplesmente ser desfeitas pelo próximo governo, certo? Precisamos criar mudanças duradouras.
Qual é sua peça de hardware favorita entre todas que já teve?
Provavelmente minha antiga câmera Fuji XT2 — uma câmera digital mirrorless com interfaces analógicas e táteis. Era um prazer fotografar com ela, e nada mais era construído daquela forma na época.
Com qual civilização você mais gosta de jogar em Sid Meier’s Civilization 7?
Sim, haha, esta não será uma resposta rápida — você abriu uma caixa de Pandora que pode render horas de conversa.
Hmmm, acho que o sete teve um lançamento muito difícil e recebeu muitas críticas, mas se transformou em um jogo muito sólido e bem estruturado. Neste momento, há algumas simplificações no design de certos mecanismos que não me agradam. Sinto falta dos pontos de era e da influência que você pode exercer, conquistando as cidades de outras pessoas por meio da cultura.
Em geral, tendo a escolher um líder mais voltado para a ciência. No Civ 7, na verdade, tenho me divertido muito com uma espécie de combinação entre a civilização de Cartago e o líder César, que é uma estratégia completa de dominação militar. Depois, você sofre muito para se recuperar disso na segunda era porque expande demais com bastante rapidez.
Quando será a mainnet da DoubleZero?
Nossa meta é antes de meados de outubro. Tudo depende da engenharia.
Conclusão
Ao acompanharmos a trajetória de Austin Federa — de um adolescente que hackeava hardware a um estrategista que narrava a ascensão da Solana e, agora, pioneiro das redes subterrâneas da DoubleZero —, descobrimos uma verdade profunda: o invisível muitas vezes dá origem ao revolucionário.
O que começou como uma estrutura retórica evoluiu para tendões de silício, nos quais a latência não é apenas uma métrica, mas uma fronteira a ser conquistada na era digital.
A reflexão de Federa nos lembra que a verdadeira inovação exige intencionalidade, seja na criação de narrativas marcantes ou no estabelecimento de conexões inquebráveis. A complacência corrói, e o entusiasmo desaparece sem raízes duradouras.
O futuro é promissor: a DoubleZero mira a mainnet até meados de outubro, com a expectativa de viabilizar um milhão de transações por segundo nos próximos anos. O hardware surge não como um elemento auxiliar, mas como um núcleo ideológico, impulsionando-nos rumo a sistemas fluidos, escaláveis e soberanos.
Esta conversa não trata apenas da jornada de Federa ao fundar a DoubleZero — ela é um projeto para pessoas que constroem em todos os lugares: abrace o invisível, questione o arbitrário e projete realidades duradouras.
Os cabos mais silenciosos carregam as convicções mais fortes.
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