
Recuperando a Opacidade: O Imperativo da Privacidade nas Criptomoedas
Índice
- Introdução
- A Inevitabilidade Neoliberal
- O Mundo Totalizante
- O Autopanóptico e a Vigilância Autoimposta
- A Promessa Quebrada do Bitcoin: Amplificando o Panóptico
- Os Cypherpunks
- A Luta por um Desenvolvimento que Priorize a Privacidade
- Batalhas Jurídicas
- Batalhas Filosóficas
- O Verdadeiro Caminho para a Mudança
- Revitalizando o Ethos Cypherpunk
Agradeço muito a Mert, Matt, Tilo e Brady pela revisão das versões anteriores deste artigo.
Introdução
A vigilância deixou de ser uma imposição. Agora, ela é infraestrutura. Passamos a habitar um mundo em que a transparência foi moralizada, a visibilidade sinaliza virtude e a arquitetura das finanças e da identidade se funde em um espelho onisciente.
Isso é vendido como “abertura”. Se você não fez nada de errado, não tem nada a esconder. Certo? Na verdade, trata-se de um autopanóptico: um sistema autossustentável de exposição voluntária, no qual a torre de vigilância foi substituída pelo feed, pelo livro-razão e pelo painel. Monitoramos a nós mesmos e chamamos isso de liberdade.
As criptomoedas eram o verão prometido após um longo inverno. Deveriam romper a dependência de forças centralizadas e devolver a soberania ao indivíduo. Deveriam inaugurar uma mudança — uma mudança de verdade —, mas, em algum ponto do caminho, reproduziram a lógica do próprio sistema contra o qual se rebelaram. O Bitcoin tornou o funcionamento financeiro transparente. No entanto, ao fazer isso, tornou-o rastreável para sempre. O sonho de libertação virou uma cadeia de custódia que registrava comportamentos, vínculos e intenções para que todos os examinassem.
Se as criptomoedas deveriam nos libertar, por que se transformaram em mais uma ferramenta de vigilância? Por que expomos livre e voluntariamente todos os aspectos da nossa vida ao próprio sistema que pretendemos suplantar?
A privacidade não tem mais valor?
Privacidade não é a ausência de dados. Pelo contrário, é a recusa à captura. O único caminho verdadeiro de recusa nesta era digital é recuperar a opacidade, recuperar o direito de existir fora do olhar algorítmico. O direito de viver sem ser indexado, para além da máquina, é de importância fundamental e parece ter sido esquecido na busca pela popularização das criptomoedas. Precisamos lutar para reconstruir o propósito das criptomoedas, e a opacidade é a forma mais radical de resistência.
Para iniciar esse processo de resistência, precisamos superar nossas inclinações neoliberais.
A Inevitabilidade Neoliberal
O colapso da União Soviética marcou o fim da Guerra Fria e da única alternativa viável ao capitalismo. Nunca se tratou apenas de capitalismo contra comunismo, mas de uma tensão entre sistemas de possibilidades. Quando um deles desmoronou, o outro deixou de precisar se justificar. O capitalismo deixou de ser uma ideologia e tornou-se o ambiente, o próprio ar que respiramos.
A ordem mundial neoliberal passou a reinar soberana, enquanto alguns estudiosos, como Francis Fukuyama, proclamavam o fim da história. A ideia era que a humanidade havia evoluído a tal ponto que a universalização da democracia liberal ocidental representava a forma final de governo humano. Já não haveria alternativas, apenas otimizações em um futuro administrado. Quando a política é reduzida à otimização, toda fronteira se torna negociável, inclusive a mais antiga: aquela entre o público e o privado. A própria barreira passa a parecer uma ineficiência, um atrito a ser eliminado pela engenharia, primeiro nos mercados e depois na subjetividade.
É claro que a democracia liberal ocidental (ou seja, a ordem mundial vencedora), que se tornara sinônimo de neoliberalismo, não nasceu em 1991. Ela foi arquitetada no fim dos anos 70 e início dos 80 por chefes de Estado polarizadores, sobretudo Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que transformaram o livre mercado em verdade moral. O Estado era o problema. A vida pública era ineficiente. Liberdade significava competição. Thatcher disse, em uma frase célebre, que a sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.
E, assim, o coletivo foi desmantelado. O bem-estar social virou dependência, o público virou ineficiência e a solidariedade passou a ser suspeita. A mão invisível foi exaltada como entidade suprema, merecedora de toda a glória e todo o louvor por nossa prosperidade atual. Tudo, das escolas aos relacionamentos, foi reinterpretado pelas lentes e pela lógica do mercado. A verdadeira inovação do neoliberalismo foi a privatização do desejo. Quando o mercado colonizou o próprio desejo, tornou-se impossível conceber a resistência. O que se seguiu não foi uma ordem econômica ou política, mas psicológica, sinistra em sua onipresença.
O Mundo Totalizante
Com o passar das décadas, o sistema deixou de precisar se justificar. Em vez disso, tornou-se o espírito cultural, uma metafísica do cotidiano. Vivemos em uma atmosfera de esforço incessante, otimização e produção. Embora seja uma cultura excelente para uma startup, ela se torna nociva quando aplicada de forma totalizante a todos os aspectos da vida.
Mark Fisher conceituou essa realidade angustiante em sua obra seminal Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo? Ele propõe que o capitalismo se tornou uma atmosfera generalizada que afeta a produção cultural, a atividade econômica e o pensamento em geral. Tudo, independentemente de ser a favor ou contra, busca reforçar a visão de mundo vigente. O desejo humano tornou-se compatível com o capitalismo — queremos carros velozes, roupas bonitas ou riqueza com o propósito altruísta de cuidar dos outros. É isso. Resolvemos a política. Qualquer outra alternativa se torna quase inimaginável.
Veja a crise financeira de 2008, de cujos incêndios e cinzas nasceu o Bitcoin. Salvamos os bancos. Não porque fossem competentes, não porque tivessem cometido apenas um erro inocente, não porque fosse a coisa certa a fazer — nós os salvamos porque a fronteira entre o Estado e o sistema bancário já havia desaparecido. Os bancos não eram agentes privados que fracassaram no livre mercado. Estavam entrelaçados a garantias públicas, entidades hipotecárias patrocinadas pelo governo e um banco central que tratava a sobrevivência deles como sinônimo da sobrevivência da economia. O fracasso era, portanto, inimaginável. Essa é a marca do realismo capitalista: quando uma instituição se torna interligada demais para falir, já nem sequer é possível perguntar se ela merece falir.
Vivemos em um mundo pós-político no qual o capitalismo habita uma realidade lacaniana — uma compreensão ideológica do mundo que rejeita fatos incompatíveis com suas interpretações atuais. Existem alternativas melhores ao estado atual das coisas? É claro. Acreditar no contrário é apenas uma visão excessivamente pessimista e ingênua de que este é o ponto culminante do desenvolvimento humano.
Até o simples ato de resistência busca reforçar a ordem mundial vigente. Fisher, por exemplo, escreveu sobre a terrível apatia e a raiva de Kurt Cobain, que deram voz ao desalento da geração surgida após o proclamado fim da história. Uma geração em que cada movimento era previsto, rastreado, comprado e vendido antes mesmo de acontecer. Cobain era apenas mais uma parte do espetáculo. O que poderia render mais dinheiro à MTV do que um protesto de uma das bandas mais populares da música mandando a MTV se foder, dentro da própria MTV? Aos poucos, tudo se torna clichê. O desejo de oferecer uma alternativa convincente gradualmente se transforma na tentativa de mitigar seus piores efeitos.
O mundo agora é autorreferencial. Todo protesto vira campanha. Toda crítica vira conteúdo. Todo ato de resistência vira uma nova categoria de produto. Vivemos e respiramos dentro do capitalismo, uma modalidade muito específica e fortemente influenciada pelo compadrio.
Nessa atmosfera, a fronteira entre economia e identidade se desgastou. O mercado absorve o que compramos e quem somos, transformando o significado em mercadoria. A mensagem de Elon para Parag Agrawal poderia muito bem ser a escritura sagrada e memética que define nosso espírito do tempo. Viver é produzir. Existir é performar. Nessa grande performance, a transparência se torna a maior virtude, manifestando-se em painéis, métricas e feeds. A visibilidade tornou-se uma categoria moral: ser visto produzindo era bom; ser transparente era ser digno de confiança. Naturalmente, isso fez com que cada clique, compra e movimento se tornasse um ato devocional a serviço do algoritmo.
Começamos a internalizar o sistema à medida que a moralização da visibilidade se intensificava. As exigências de performar, otimizar e quantificar tornaram necessárias novas arquiteturas de poder. A melhor arquitetura para atender às nossas necessidades já tinha um nome, cunhado séculos antes: o panóptico.
O Autopanóptico e a Vigilância Autoimposta
O panóptico surgiu como uma prisão. No século XVIII, o filósofo e teórico social inglês Jeremy Bentham projetou um edifício institucional com um sistema de controle integrado. A ideia era terrivelmente simples: construir uma rotunda com uma torre de inspeção no centro. O conceito também se aplicava a fábricas, escolas, asilos, sanatórios e hospitais, mas Bentham estava mais interessado em aplicá-lo às prisões. Imagine Barad-dûr no centro de um círculo perfeito de celas. Os detentos não sabem se estão sendo observados e, por isso, sentem-se constantemente impelidos a agir como se sempre estivessem.
Michel Foucault tomou o panóptico de Bentham e o transformou em uma metáfora da sociedade moderna. A vigilância já não exige muros — ela vive dentro de escolas, fábricas, instituições e escritórios. Vive nas ruas sob a forma das câmeras de circuito fechado britânicas (algo bastante irônico, vindo da sociedade que também produziu V de Vingança e 1984). O poder deixou de precisar da violência, pois aprendemos a policiar a nós mesmos. O olhar foi internalizado.
Byung-Chul Han leva a análise um passo adiante. Em Psicopolítica, Han argumenta que o poder disciplinar, mesmo em sua forma foucaultiana internalizada, ainda pressupõe uma estrutura externa. Ou seja, muros, guardas, instituições, uma torre de vigilância em algum lugar. A psicopolítica, sua sucessora, opera por meio da liberdade, e não contra ela. Nós nos exploramos voluntariamente e vivenciamos essa autoexploração como uma forma de autorrealização. O esgotamento se torna a patologia característica dessa condição, representando a exaustão de um sujeito que se tornou o próprio capataz. Não há um guarda a derrubar; você é o guarda e aprendeu a amar de verdade seu trabalho, mesmo que se canse dele.
Em Sociedade da Transparência, Han afirma que a transparência é o poder em sua forma mais contemporânea. Uma sociedade que moralizou a visibilidade total a aperfeiçoou, dissolvendo o segredo, o mistério e o outro incognoscível dos quais a política e a individualidade genuínas precisam.
Agora, construímos algo muito mais eficiente do que um panóptico: o autopanóptico, um sistema no qual participamos voluntariamente da nossa própria observação. É claro que isso parece absurdo. Por que alguém aceitaria de bom grado a vigilância? Em poucas palavras, nós a tornamos prazerosa. Aceitamos cookies em todos os sites que visitamos, concordamos com os termos de serviço sem lê-los, ativamos o compartilhamento de localização, publicamos nossas refeições e gravamos vlogs sobre nossa vida cotidiana para públicos invisíveis. Medimos a nós mesmos por meio de painéis e métricas. Monitoramos nossos passos, nossas negociações, nossas vitórias, nossa pontuação de sono e, literalmente, nossos batimentos cardíacos (um salve para a Whoop), e chamamos isso de “transparência”.
A torre de vigilância foi substituída pelo feed. O guarda foi substituído pelo algoritmo.
Shoshana Zuboff chama isso de capitalismo de vigilância. Ou seja, a coleta em massa e a mercantilização de dados pessoais. Em vez de temermos a exposição, passamos a desejá-la porque o sistema foi projetado para torná-la prazerosa por meio da gamificação.
Tudo bem, talvez eu veja mais alguns anúncios direcionados e a Amazon fique assustadoramente boa em recomendar o próximo livro que devo ler, mas certamente tudo isso é inofensivo, certo? Bem, não. A Cambridge Analytica, por exemplo, foi uma consultoria política britânica que operou de 2013 a 2018. Ela ficou conhecida por coletar dados de usuários do Facebook e combiná-los com perfis psicológicos para prever e influenciar o comportamento eleitoral. A ideia era que, conhecendo as preferências e aversões de uma pessoa, seus amigos, cliques e os testes que ela fazia por diversão, seria possível mostrar anúncios políticos personalizados capazes de mudar suas opiniões. A Cambridge Analytica participou do referendo de 2016 sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, incentivando eleitores “persuadíveis” a votar pela saída da UE (veja no que deu). A Cambridge Analytica também participou da campanha de Trump nas primárias republicanas e no verão de 2016 (veja no que deu). A Cambridge Analytica também se envolveu politicamente em eleições na Austrália, Índia, Quênia, Malta e México, entre outros países, e seus executivos afirmaram em 2018 que haviam trabalhado em mais de 200 eleições no mundo inteiro. O fato de sua empresa controladora, o SCL Group, ter participado de operações psicológicas com o Ministério da Defesa do Reino Unido não ajuda. Basta dizer que não se trata apenas de alguns anúncios direcionados a mais.
A esta altura, sinto que estou usando um chapéu de papel-alumínio e despejando baboseiras conspiratórias, mas tudo isso está amplamente documentado, revelando algo muito mais sombrio. Já não estamos apenas sendo observados — estamos sendo modelados.
O que Foucault jamais poderia ter previsto era que os alvos da vigilância se tornariam seus arquitetos. O panóptico já não é imposto de cima para baixo. Nós mesmos o construímos, pixel por pixel, publicação por publicação, curtida por curtida. O que começou como mídia social virou engenharia social. A mesma lógica se repetiu com a digitalização das finanças.
Ironicamente, as criptomoedas levam isso à sua forma mais elevada e pura. Cada transação e cada endereço ficam visíveis para todos. A blockchain tornou-se uma espécie de panóptico descentralizado; a transparência encarnada. Entregamos hiperlegibilidade ao replicar a torre de vigilância em cada nó. Qualquer pessoa pode ver tudo, para sempre, “por precaução”.
Isso dá origem a uma economia moral na qual a privacidade se torna suspeita. Por que você está ocultando os valores das transações? Por que acabou de usar o Tornado Cash? Por que fez uma ponte para a Monero?
Ser opaco é ser perigoso.
O sistema não começou com as criptomoedas, mas elas o aperfeiçoaram. Para entender como chegamos à situação atual, precisamos voltar à criação do Bitcoin.
A Promessa Quebrada do Bitcoin: Amplificando o Panóptico
O Bitcoin não nasceu de uma rebelião contra o capitalismo de vigilância; nasceu de uma rebelião contra a opacidade. O ano era 2008: o mundo teve de enfrentar as provações e tribulações de um sistema financeiro global implodindo sob o peso da própria complexidade e complacência. Bancos quebraram, o governo imprimiu dinheiro e disseram às pessoas que arcavam com a conta que a instituição era “grande demais para falir”.
O Bitcoin foi uma reação à caixa-preta das finanças modernas. Uma reação a um sistema de intermediários tão opaco que desmoronou sob as próprias mentiras. A solução apresentada foi a transparência radical: um livro-razão público incorruptível que todos poderiam consultar e usar para chegar a um consenso sobre a verdade. A resposta de Satoshi Nakamoto — “não confie, verifique” — foi simples e devastadora. O primeiro bloco trazia uma mensagem enterrada em seu código: The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks.
No entanto, na nobre busca por impossibilitar a corrupção, o Bitcoin tornou a vigilância inevitável. Ele permanece como um monumento permanente à atividade humana. Dados antes guardados atrás de barreiras de conformidade, paywalls e cofres agora estão disponíveis para todos. Esse nível inédito de transparência automatizou a supervisão, em vez de nos libertar dela.
O resultado foi o nascimento de um novo sacerdócio de indivíduos, empresas e instituições capazes de transformar o livro-razão imutável do Bitcoin em uma interface panóptica. Isso ficou dolorosamente claro em 2022, durante os protestos de caminhoneiros da era da COVID em Ottawa. Enquanto os manifestantes se mobilizavam contra a obrigatoriedade da vacinação, o governo canadense invocou poderes emergenciais para congelar as contas bancárias tanto dos manifestantes quanto dos doadores. As carteiras de Bitcoin usadas para financiar o comboio foram incluídas em listas de bloqueio, rastreadas e apreendidas.
O erro do Bitcoin — seu erro mais grave — foi confundir transparência com confiança. A transparência é uma virtude para instituições, não para indivíduos. Quando aplicada à vida humana, ela se torna um sistema de coerção branda, pois dá origem a uma economia moral na qual a privacidade é suspeita. Repita comigo: ser opaco é ser perigoso.
É claro que o Bitcoin não era de todo ruim. Foi o primeiro a estabelecer um sistema de pagamentos online ponto a ponto que eliminava a necessidade de um intermediário terceirizado para autenticar transações. Suas origens estão nos misteriosos superprogramadores que abriram novas fronteiras na criptografia e na cifragem para preservar a privacidade. A ideia era que a cifragem fosse uma ferramenta de privacidade — uma ferramenta com “o poder de se revelar seletivamente ao mundo”. Esses misteriosos superprogramadores eram conhecidos como cypherpunks.
Os Cypherpunks
Em uma época em que a maioria das pessoas ainda estava descobrindo a conexão discada, uma heterogênea lista de discussão formada por programadores, criptógrafos, libertários, anarquistas, hackers e acadêmicos provocadores entendeu que o mundo digital se tornaria o principal campo de batalha pela liberdade.
Na época, a cifragem forte era classificada pelo governo dos EUA como munição, de acordo com regulamentações de controle de exportações da era da Guerra Fria criadas para impedir que avanços tecnológicos caíssem nas mãos do Bloco Oriental. Assim, qualquer pessoa que trabalhasse livremente com cifragem era tratada como se estivesse enviando urânio concentrado para comunistas. Isso deu origem à infame camiseta sobre munições de Adam Back, que estampava um código-fonte de cifragem RSA sujeito a restrições de exportação como protesto pela liberdade de expressão, e à tatuagem de Richard White com uma sequência de cifragem RSA. Com a chegada do computador pessoal, somada ao software de cifragem PGP de Phil Zimmermann e à sua distribuição pela Internet, passamos a ter uma situação jurídica precária. Enquanto isso, a NSA pressionava discretamente pela instalação de backdoors em todos os dispositivos, padrões e protocolos. Esses interesses conflitantes, os protestos e a proliferação da cifragem levaram à primeira “guerra cripto”, quando “cripto” ainda significava criptografia, e não “o número só sobe”.
Os cypherpunks defendiam que a privacidade era um pré-requisito para a liberdade — não um luxo, uma preocupação ou um nicho, mas uma condição necessária à individualidade na era digital. Eles afirmavam que, se a tecnologia de vigilância fosse possível, os governos a usariam amplamente, e estavam certos. Portanto, a única resistência significativa é a resistência tecnológica. Não por meio de protestos ou políticas, mas de código.
Em Manifesto Cypherpunk (1993), Eric Hughes argumenta que “[a] privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era eletrônica”. Ele acrescenta: “[n]ão podemos esperar que governos, corporações ou outras grandes organizações nos concedam privacidade… precisamos defender nossa própria privacidade se quisermos ter alguma”. Precisamos defender nossa própria privacidade.
Os cypherpunks criaram os primeiros protótipos do que hoje chamamos de criptomoedas:
- David Chaum inventou o dinheiro digital e as provas de conhecimento zero
- Nick Szabo foi o primeiro a teorizar sobre contratos inteligentes
- Wei Dai propôs o b-money, um sistema anônimo e distribuído assustadoramente semelhante ao Bitcoin
- Adam Back criou o Hashcash, um mecanismo de Proof of Work para combater spam
- Hal Finney desenvolveu um sistema reutilizável de Proof of Work usando o Hashcash, cinco anos antes do Bitcoin
Eles eram sabotadores tentando projetar sistemas que o Estado não pudesse regulamentar, não sistemas que ele acabaria endossando por meio de ETFs e planos de previdência. O Bitcoin herdou sua criptografia, mas não sua política.
A privacidade sempre foi o objetivo dos cypherpunks. Eles queriam não observabilidade. Queriam transações que não deixassem resíduos públicos, comunicação impossível de rastrear, identidade dissociada do comportamento e a possibilidade de coordenação sem gerar rastros comportamentais que Estados ou corporações pudessem monetizar. O Bitcoin foi construído sobre o trabalho deles para resolver o problema do gasto duplo, mas, ao fazer isso, sacrificou a opacidade.
Essa poderia ser nossa realidade atual. Veja Chaum, por exemplo: ele inventou assinaturas cegas e dinheiro digital anônimo em 1982, anos antes de a Internet sequer se tornar pública. Fundou a DigiCash no início da década de 1990, fechou um acordo com o Deutsche Bank e desenvolveu pagamentos eletrônicos funcionais e impossíveis de rastrear. A tecnologia funcionava. Os bancos estavam interessados. A infraestrutura para uma economia digital privada existia antes que a maioria das pessoas sequer tivesse ouvido falar da World Wide Web.
Infelizmente, a DigiCash faliu em 1998. Ninguém ainda sentia necessidade dela, pois a Internet continuava sendo uma novidade e não havia se tornado predatória. As pessoas não se preocupavam em ser observadas — queriam ser vistas. O mesmo impulso que mais tarde alimentaria o autopanóptico já estava presente em forma embrionária, esperando para se espalhar como fogo com o advento das mídias sociais. Chaum vendia a cura para uma doença que ninguém acreditava ter ou que, na verdade, ninguém sabia que tinha. O mundo seguiu em frente e escolheu cartões de crédito e PayPal — convenientes, centralizados e rastreáveis. A privacidade estava disponível, mas optamos pela vigilância porque era mais fácil.
Hal Finney levou essa ideia adiante. Ele era um cypherpunk desde os primeiros dias da lista de discussão e trabalhava em ferramentas criptográficas que tornariam possível o dinheiro descentralizado. O sistema reutilizável de Proof of Work de Finney foi um precursor direto do Bitcoin. Quando Satoshi Nakamoto publicou o whitepaper do Bitcoin, Finney estava entre os poucos curiosos. Foi a primeira pessoa a receber uma transação de Bitcoin: 10 BTC enviados pelo próprio Satoshi em 12 de janeiro de 2009. Finney viu de perto tanto a promessa quanto as concessões do Bitcoin e continuou sendo um defensor comprometido da privacidade em sistemas digitais até sua morte, em 2014.
O Bitcoin nasceu dentro de uma comunidade que lutava vorazmente pela opacidade. Satoshi precisava resolver o gasto duplo sem recorrer a um terceiro confiável. A solução foi elegante (ou seja, um livro-razão público que todos podiam verificar). No entanto, era uma barganha faustiana. A criptografia era cypherpunk. A arquitetura era cypherpunk. Mas a legibilidade era o oposto de tudo pelo que os cypherpunks lutavam.
A verificabilidade sem confiança também significava vigilância sem esforço. Todas as transações, endereços e movimentações de valor ficavam registrados permanentemente para todos verem. As propriedades que tornaram o Bitcoin incorruptível também o tornaram perfeito para investigações forenses. O Bitcoin reproduziu o autopanóptico no nível do protocolo. A transparência criada para responsabilizar instituições tornou-se um mecanismo para responsabilizar indivíduos. O surgimento de empresas de análise on-chain, as sanções da OFAC e os esforços renovados das autoridades policiais eram inevitáveis.
A resposta do setor a tudo isso foi transformar a privacidade em mercadoria, em vez de restaurá-la. Comprar Zcash na Coinbase não faz de você um cypherpunk. A privacidade é vista como um produto, seja um token que você compra ou um recurso que ativa. Os cypherpunks a viam de outra forma. Eles imaginavam a privacidade como o estado padrão da existência digital, uma condição tão fundamental que sua ausência exigiria justificativa. Os poucos que ainda desenvolvem com essa convicção são processados em vez de celebrados.
A Luta por um Desenvolvimento que Priorize a Privacidade
Batalhas Jurídicas
Em agosto de 2022, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro dos EUA sancionou o Tornado Cash, algo que, para quem conhece blockchains e contratos inteligentes, parece completamente absurdo. O Tornado Cash é um conjunto de contratos inteligentes imutáveis na Ethereum que rompe os vínculos tradicionais entre remetente e destinatário ao reunir fundos de vários usuários e permitir que eles retirem valores equivalentes para novas carteiras. Em resumo, o Tornado Cash é um misturador de criptomoedas descentralizado que opera na Ethereum para oferecer privacidade aos usuários.
Essa foi a primeira vez que a OFAC sancionou código autônomo.
Dois dias após a imposição das sanções, as autoridades neerlandesas prenderam Alexey Pertsev, que escreveu e publicou o código do Tornado Cash. Em maio de 2024, ele foi condenado a mais de cinco anos de prisão. Um ano depois, os EUA acusaram os cofundadores Roman Storm e Roman Semenov de lavagem de dinheiro, violação de sanções e operação de uma empresa de transmissão de dinheiro sem licença. Hoje, em junho de 2026, essa batalha jurídica ainda está em andamento.
O Tornado Cash nunca assume a custódia dos fundos. Seus contratos principais são imutáveis, o que significa que Pertsev, Storm ou Semenov não poderiam encerrá-los mesmo que quisessem. O argumento do governo, na prática, é que publicar código de preservação da privacidade e manter um site que aponta para ele constitui a “operação” de uma empresa financeira.
Em agosto de 2025, um júri do Distrito Sul de Nova York condenou Storm pela acusação de transmissão de dinheiro sem licença e não chegou a um consenso sobre as outras duas acusações. O Departamento de Justiça pressiona por um novo julgamento das acusações que não tiveram veredito.
Em uma audiência realizada em abril deste ano, o juiz responsável perguntou a um promotor se o simples ato de criar o Tornado Cash era crime, e o promotor respondeu que não. O governo americano sugere que mantê-lo é ilícito porque um misturador oculta fundos ilícitos com mais eficácia quando também contém grandes volumes de criptomoedas “limpas”. Levando essa lógica à sua conclusão natural, atender usuários que cumprem a lei e querem apenas privacidade seria, por si só, uma prova de facilitação da lavagem de dinheiro. O uso lícito da privacidade é reformulado como camuflagem para o ilícito.
Agora repita comigo: ser opaco é ser perigoso.
Outro caso do DOJ, o caso da Samourai Wallet, terminou com menos ambiguidade. Keonne Rodriguez e William Lonergan Hill, que criaram uma carteira de Bitcoin não custodial com recursos de privacidade baseados em CoinJoin, declararam-se culpados para evitar o risco de passar décadas na prisão. Rodriguez recebeu uma pena de cinco anos, enquanto Hill recebeu quatro.
Poucos dias após as prisões da Samourai, a Wasabi Wallet bloqueou usuários americanos e logo descontinuou por completo seu serviço de mistura. A Phoenix Wallet, uma carteira Lightning de autocustódia sem problemas jurídicos conhecidos, saiu das lojas de aplicativos dos EUA. A Sparrow Wallet desativou sua integração com o Whirlpool um dia após a acusação formal. Ninguém ordenou nada disso, mas dois processos disciplinaram um setor inteiro. Isso aconteceu porque os detentos não sabiam se estavam sendo observados e, portanto, comportavam-se como se sempre estivessem.
Enquanto isso, a Monero, que incorpora a privacidade ao protocolo em vez de adicioná-la por cima, foi expulsa do mundo regulamentado. Uma corretora após a outra removeu a Monero sob pressão regulatória. Na Europa, por exemplo, essa posição foi codificada de acordo com o regulamento da UE sobre Mercados de Criptoativos (MiCA), especificamente o Reg. 2023/1114, Art. 76(3), que proíbe prestadores de serviços de criptoativos de oferecer moedas que ampliem o anonimato, a menos que seus detentores e respectivos históricos de transações sejam identificáveis. O novo regulamento antilavagem de dinheiro da UE, o Regulamento (UE) 2024/1624, busca aplicar essa posição a partir de 10 de julho de 2027, exigindo que os prestadores mantenham uma conexão entre os detentores e suas transações.
O padrão é inconfundível: privacidade na camada de aplicação leva você a ser processado; privacidade no nível do protocolo leva você a ser removido das corretoras. Ainda assim, o Estado não se opõe às criptomoedas — está adotando-as por meio de ETFs, stablecoins, RWAs e reservas estratégicas. A objeção diz respeito especificamente à opacidade. As criptomoedas são amplamente bem-vindas desde que continuem sendo um instrumento perfeito de vigilância.
A base jurídica de tudo isso é menos sólida do que os processos mencionados sugerem. No fim de 2024, o Quinto Circuito decidiu, em Van Loon v. Department of the Treasury, que contratos imutáveis como os do Tornado Cash não são “propriedade” de nenhuma nação estrangeira e, portanto, não podem ser sancionados segundo a legislação vigente. Em março de 2025, o Tesouro removeu completamente o Tornado Cash da lista de sanções. Que absurdo: o código em si foi legalmente reabilitado, enquanto os programadores que o escreveram enfrentam um novo julgamento. A ferramenta deixou de ser sancionada, mas seu criador não. Esse não é o comportamento de um sistema confiante em sua tese jurídica. É o comportamento de um sistema que quer dar um exemplo.
Batalhas Filosóficas
No centro desses argumentos jurídicos está a noção de que essas ferramentas são usadas para lavagem de dinheiro, evasão de sanções e coisas piores. Nenhuma pessoa séria contestará isso. No entanto, esse argumento pressupõe que uma ferramenta deva ser proibida porque criminosos a utilizam.
O dinheiro em espécie é a tecnologia de privacidade original. É um instrumento anônimo ao portador que muda de mãos sem deixar registros, não identifica remetente nem destinatário e realiza a liquidação instantaneamente, sem intermediários. É o meio de pagamento usado em praticamente todos os crimes de rua da história humana. Pela lógica dos processos contra o Tornado Cash, o dinheiro em espécie é uma empresa de transmissão de dinheiro sem licença em escala assombrosa, e o Tesouro que o imprime é seu operador.
A cifragem de ponta a ponta enfrenta repetidamente o mesmo desafio. A cada poucos anos, parece que nossos governos redescobrem que terroristas usam aplicativos como o Signal e exigem um backdoor para os “mocinhos”; a cada poucos anos, criptógrafos explicam pacientemente que um backdoor para os mocinhos é um backdoor para todos. Em geral, reconhecemos esse argumento como autoritário quando ele tem como alvo nossas comunicações, mas, de alguma forma, fomos convencidos de que é prudente quando tem como alvo nosso dinheiro. Embora as relações financeiras sejam possivelmente menos íntimas do que mensagens de texto, revelar para quem você envia dinheiro, quando, quanto e com que frequência pode criar alguns dos rastros de dados mais reveladores que uma pessoa é capaz de produzir.
Em 2025, o Ministério do Interior do Reino Unido enviou à Apple um “aviso de capacidade técnica” secreto nos termos do Investigatory Powers Act, exigindo acesso por backdoor aos dados cifrados do iCloud. Em vez de criar um backdoor, a Apple retirou completamente do Reino Unido seu recurso de cifragem mais forte (ou seja, o Advanced Data Protection). No fim de 2025, o governo simplesmente renovou sua exigência. Revelar que tal exigência foi feita é crime. O Estado exige “transparência” de seus cidadãos enquanto criminaliza a transparência sobre si próprio.
E quanto aos carros? Eles deveriam ser proibidos porque motoristas de fuga os utilizam? E quanto à Internet? A legislação americana reconhece há muito tempo o princípio da tecnologia de uso duplo: uma ferramenta com usos lícitos substanciais não se torna simplesmente contrabando apenas porque criminosos também a utilizam. Aplicamos esse princípio em todos os lugares, exceto, ao que parece, à infraestrutura de privacidade financeira.
As evidências empíricas são ainda piores, pois os crimes financeiros em blockchains são consistentemente insignificantes em comparação com a atividade ilícita no sistema bancário tradicional. Esquecemos que o HSBC movimentou centenas de milhões para o cartel de Sinaloa e recebeu um acordo de adiamento do processo e uma multa? Esquecemos que a filial estoniana do Danske Bank movimentou cerca de duzentos bilhões de euros em fluxos suspeitos? Nenhum executivo construiu esses canais em um laptop, e nenhum deles enfrenta o que Roman Storm enfrenta. As instituições que lavam dinheiro em larga escala recebem multas tratadas como custo operacional. Os desenvolvedores que escrevem código de privacidade para pessoas comuns são presos como advertência.
Eliminar ferramentas de privacidade não elimina a privacidade dos criminosos. Criminosos sofisticados contam com jurisdições, estruturas de empresas de fachada e profissionais para isso. O que se elimina é a privacidade de todos os outros que não podem pagar por essas coisas. Em outras palavras, os poderosos permanecem opacos e o restante de nós se torna legível.
A questão nunca foi se agentes mal-intencionados usam ferramentas de privacidade. A questão é se a existência desses agentes justifica abolir a privacidade de todos os outros. Todas as gerações anteriores à nossa, confrontadas com dinheiro em espécie, cartas lacradas, cortinas, carros de fuga e a Internet, responderam enfaticamente que não.
Somos a primeira geração convencida a responder que sim.
O Verdadeiro Caminho para a Mudança
A armadilha de escrever um ensaio dessa dimensão é que o diagnóstico é tão abrangente que qualquer prescrição parece inadequada. Fisher identificou a doença com uma precisão devastadora e encerrou sua obra seminal sobre o realismo capitalista com um gesto em direção a uma política ressurgente que nunca conseguiu articular por completo. Han diagnostica brilhantemente a psicopolítica e, como forma de resistência, propõe o idiotismo, algo estranhamente apropriado diante do discurso atual sobre “retardmaxxing”. Do grego idiotes, Han deriva o termo para a pessoa privada que se recusa a entrar na ágora. Temos o direito de ser improdutivos, não indexados e ilegíveis.
Essa é a resposta certa.
No entanto, da forma como Han a apresenta, ela é uma postura estética, não um programa. Como alguém pode realmente viver sem ser indexado quando o índice é o substrato da vida econômica? Han não diz. Se simplesmente nos recusarmos a ser produtivos, o panóptico continuará existindo.
Os mecanismos conhecidos não são melhores. Intensificar o lobby, eleger reguladores mais favoráveis e codificar proteções aos desenvolvedores são medidas importantes, mas apenas nas margens. A decisão do Quinto Circuito sobre a definição legal de “propriedade” é uma tecnicalidade que o Congresso pode alterar em uma única tarde. Direitos que dependem da tolerância do Estado não são direitos — são permissões, todas revogáveis ao sabor da próxima administração.
A privacidade também não pode ser resgatada pelo consumo. Comprar a moeda certa, ativar o recurso certo e assinar a VPN certa não resolverá o problema. O próprio canal de consumo é a vigilância. A resistência não é uma categoria de produto.
Os cypherpunks são de importância fundamental para nós porque, ao contrário de Fisher e Han, oferecem uma práxis clara: infraestrutura como código. O objetivo é incorporar a privacidade ao substrato da vida digital, onde a opacidade seja a condição comum, e não uma escolha desviante; algo que não possa ser moralmente condenado nem revendido como recurso premium. O idiotismo de Han é aquilo que a infraestrutura cypherpunk torna materialmente possível. A opacidade no nível do protocolo é uma condição necessária à individualidade no nível humano.
Para seu mérito, o Estado entende isso perfeitamente. É disso que tratam os processos. O novo julgamento de Storm, as condenações da Samourai, a remoção da Monero das corretoras e a eliminação programada do anonimato pela UE são ações de um sistema que identificou corretamente a infraestrutura de privacidade como ameaça política. Em 1993, os cypherpunks apostaram que o código era a única forma significativa de resistência e, trinta anos depois, aqueles que mais se empenham em suprimi-lo estão validando empiricamente essa aposta.
Revitalizando o Ethos Cypherpunk
O caminho a seguir não tem nada de novo. É um retorno à posição original, mas com ferramentas muito melhores: privacidade como estado padrão da existência digital, uma condição tão fundamental que sua ausência exige justificativa.
A aquisição da Light Protocol pela Helius, equipe responsável pelas syscalls de conhecimento zero originais da Solana e pela criação do ZK Compression, combina criptografia com distribuição em escala incomparável. O tipo de ferramenta com que os cypherpunks sonhavam logo estará disponível para o mundo inteiro, em escala, na Solana.
A objeção óbvia: este ensaio não acabou de argumentar que todo ato de resistência se torna uma categoria de produto? Que não podemos resgatar a privacidade apenas por meio do consumo? Sim, mas a distinção é importante. Privacidade como produto é um token que você compra, um recurso que ativa, uma confissão que faz ao optar por aderir. Privacidade como substrato é infraestrutura: aberta a qualquer desenvolvedor, configurável para diferentes aplicações e projetada para que a opacidade seja a condição comum das transações. A primeira transforma o ethos cypherpunk em mercadoria; a segunda o coloca em prática.
Há uma segunda objeção. A privacidade com divulgação seletiva não seria apenas vigilância com autorização? Se sistemas protegidos permitem que usuários comprovem aspectos de suas transações para auditores ou contrapartes, o jogo já não teria sido entregue à conformidade? Não, os cypherpunks foram os primeiros a traçar essa linha. Hughes definiu privacidade como o poder de se revelar seletivamente ao mundo. Isso pressupõe seletividade. A arquitetura exigida pela privacidade é aquela que resiste à legibilidade involuntária (ou seja, sem chaves globais de visualização, sem listas de bloqueio no nível do protocolo e sem vigilância incorporada ao substrato). Quando ocorre, a divulgação pertence ao usuário; é comprovada seletivamente, a seu critério, para quem ele escolher. Um sistema no qual o usuário tem o poder de decidir para quem e quando se revelar é a definição de Hughes em produção. Um sistema no qual o emissor ou o Estado pode ver tudo, independentemente da escolha do usuário, é outro panóptico. Essa distinção — entre a divulgação controlada pelo usuário e a divulgação imposta independentemente de sua vontade — é a linha que separa a infraestrutura de privacidade da vigilância fantasiada de privacidade.
A Zcash é a prova de que chegou o momento. Em sua primeira década, a proteção era opcional e rara, abrangendo apenas percentuais de um dígito da oferta, e entrar em um pool protegido era, por si só, suspeito. Agora, as carteiras usam endereços protegidos por padrão, as integrações cresceram e a oferta protegida praticamente triplicou, chegando a quase um terço de todo o ZEC, com a maioria das transações passando agora pelo pool protegido. Décadas depois do fim da DigiCash, que vendia a cura para uma doença que ninguém sentia, temos valor real entrando voluntariamente na escuridão. A criptografia nunca foi o gargalo.
A Zcash está demonstrando ser dinheiro privado, uma reserva de valor cifrada em uma blockchain dedicada. O que ainda não foi comprovado é uma vida econômica privada: pagamentos, empréstimos, folhas de pagamento e ativos tokenizados, denominados nas moedas que as pessoas realmente usam, combináveis com os aplicativos dos quais já dependem e na escala do cotidiano. A Zcash pede que você viaje para algum lugar privado. O problema mais difícil é tornar o lugar onde você já vive opaco por padrão e revelável por escolha: uma vida econômica privada nas blockchains que as pessoas já usam. A Solana é uma dessas frentes, com muitas outras equipes criando soluções de privacidade em outros ecossistemas. Essas equipes precisam ser defendidas de forma contundente e concreta. O novo julgamento de Storm e o precedente que ele estabelecerá determinarão se a próxima geração de engenheiros de privacidade desenvolverá abertamente ou sob pseudônimos, a partir de jurisdições convenientes.
O Bitcoin provou que o dinheiro criptográfico era possível. A Ethereum provou que ele poderia ser programável. A Solana provou que ele poderia ganhar escala e chegar às massas. O que ainda não foi comprovado é que ele pode fazer tudo isso sem deixar de ser compatível com a individualidade. Que um sistema financeiro pode ser rápido, aberto e verificável sem tornar todos os participantes permanentemente legíveis. A privacidade é a última fronteira de escalabilidade para levar as criptomoedas às massas, e foi a primeira que os cypherpunks identificaram, três décadas antes de o restante de nós começar a sentir a doença.
Fisher disse que o poder mais profundo do sistema está em tornar as alternativas inimagináveis. Han disse que ele governa por meio da liberdade de performar. O livro-razão diz que tudo fica visível, para sempre, “por precaução”. Contra os três, a resposta dada por Hughes em 1993 continua pungente: não podemos esperar que governos, corporações ou outras grandes organizações nos concedam privacidade. Para ter poder sobre nós mesmos, para ter verdadeira individualidade, precisamos defendê-la por conta própria.
Precisamos construí-la, operá-la e usá-la.
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