
Guia de pagamentos com stablecoins para fintechs e instituições financeiras
As stablecoins já estão mudando a forma como fintechs e instituições processam pagamentos. Este guia é um plano estratégico para fintechs e instituições que buscam entender e aproveitar o poder das moedas digitais para alcançar uma eficiência sem precedentes e abrir novas oportunidades de mercado.
Uma stablecoin é um tipo de criptomoeda criada para manter um valor de mercado estável por meio da vinculação a uma referência externa, como uma moeda fiduciária — por exemplo, o dólar americano — ou uma commodity, como o ouro. Em geral, as stablecoins mantêm essa paridade por meio de mecanismos como reservas equivalentes do ativo ao qual estão vinculadas (por exemplo, lastro de 1:1 em dólares americanos) ou protocolos algorítmicos que ajustam a oferta com base na demanda.
Em 2024, o volume total de transferências de stablecoins chegou a US$ 27,6 trilhões, superando o volume combinado da Visa e da Mastercard. Hoje, o valor de mercado das stablecoins ultrapassou US$ 232 bilhões, impulsionado pelo rápido crescimento da adoção em pagamentos, negociações e transferências internacionais. Alguns ecossistemas estão registrando um crescimento explosivo. A oferta de stablecoins na Solana, por exemplo, cresceu 156% no início de 2025, superando US$ 13 bilhões, com o USDC da Circle representando uma participação significativa de 77% no mercado da plataforma.
O crescimento dessas moedas digitais voltadas à utilidade sugere um amadurecimento do setor de ativos digitais, no qual a estabilidade e a eficiência das transações são cada vez mais valorizadas.
Este artigo é um guia estratégico para entender como as stablecoins estão transformando os pagamentos. Seja você uma fintech que busca acelerar transações ou um banco que explora novas fontes de receita, este guia explica onde as stablecoins agregam valor, como integrá-las e quais decisões essenciais você precisa tomar para aproveitar de fato o poder dos dólares digitais.
O mercado global de pagamentos atual
O mercado global de pagamentos sustenta o comércio mundial e, portanto, representa um enorme segmento do setor financeiro. A previsão é que ele cresça de US$ 716,31 bilhões em 2024 para US$ 783,02 bilhões em 2025.
Esse vasto mercado opera por meio de um ecossistema complexo de operadores e tipos de pagamento. Entre os principais operadores estão as entidades que gerenciam os "trilhos de pagamento" subjacentes — a infraestrutura que permite a movimentação de recursos. Nos EUA, exemplos importantes incluem a ACH (Automated Clearing House), sistemas mais recentes em tempo real, como FedNow (Federal Reserve) e RTP (The Clearing House), além das onipresentes redes de cartões (Visa, Mastercard, American Express e Discover).
Globalmente, sistemas como o SWIFT facilitam a troca de mensagens interbancárias para transferências internacionais, enquanto redes regionais como a SEPA, na Europa, ou a UPI, na Índia, processam fluxos nacionais ou regionais. Os processadores de pagamentos atuam como intermediários, facilitando a autorização e a liquidação de transações entre comerciantes, consumidores e instituições financeiras. Os principais tipos de pagamento que passam por esses trilhos incluem métodos tradicionais, como transferências de crédito, débitos diretos, cheques e depósitos em dinheiro.
Oportunidades para stablecoins no setor de pagamentos atual
O setor global de pagamentos processa trilhões de dólares por ano, mas ainda é repleto de ineficiências. Tarifas altas, transações lentas e sistemas complexos abrem espaço para inovação — especialmente para soluções como stablecoins. As stablecoins abordam diretamente as principais fragilidades dos sistemas tradicionais:
Redução de custos
Os métodos de pagamento tradicionais, principalmente os internacionais, continuam extremamente caros. Pagamentos internacionais de varejo podem consumir até 6% do valor da transação, enquanto as remessas são notoriamente caras — o custo médio global para enviar uma quantia modesta, como US$ 200, é de cerca de 6,6%.
Pagamentos internacionais B2B também geram tarifas consideráveis por meio de bancos intermediários e conversões cambiais, podendo custar de US$ 14 a US$ 150 a cada US$ 1.000 transferidos.
Transferir stablecoins em blockchains eficientes como a Solana pode custar apenas US$ 0,00025 por transação.
Aceleração da liquidação
Sistemas de pagamento legados frequentemente apresentam atrasos de liquidação que variam de algumas horas a vários dias úteis, sobretudo em transações internacionais, que podem levar de 2 a 5 dias ou mais.
Essa latência imobiliza capital de giro e gera custos de oportunidade, pois os recursos não ficam disponíveis para uso ou investimento durante o período de liquidação. Ela também introduz risco de contraparte e pode prejudicar relações comerciais.
A finalidade da liquidação na Solana pode ser alcançada em aproximadamente 400 milissegundos. Essa liquidação quase instantânea libera o capital retido praticamente de imediato, disponibiliza uma liquidez significativa e reduz drasticamente os custos de oportunidade associados à espera pelos recursos.
Maior acessibilidade
Uma parcela significativa da população mundial continua excluída do sistema financeiro formal. Entre as barreiras estão a falta de acesso à infraestrutura bancária física, especialmente em áreas rurais, o alto custo dos serviços bancários básicos, requisitos complexos de documentação e identificação e o baixo nível de educação financeira.
Para acessar stablecoins, basta ter uma conexão com a internet e uma carteira digital compatível em um smartphone ou computador.
Maior interoperabilidade
O backend do sistema de pagamentos tradicional é marcado pela complexidade e fragmentação. Ele depende de um conjunto de sistemas legados isolados, formatos proprietários de mensagens — embora padrões como o ISO 20022 busquem melhorar esse cenário — e inúmeros intermediários.
Essa falta de interoperabilidade contínua entre diferentes redes de pagamentos nacionais e internacionais contribui diretamente para os altos custos, a lentidão e a falta de transparência do sistema.
Blockchains sem permissão oferecem um ambiente aberto e altamente combinável. Isso significa que diferentes aplicativos e serviços podem interagir e desenvolver soluções uns sobre os outros de forma integrada, sem precisar da autorização de um gatekeeper central.
Stablecoins vs. pagamentos tradicionais
Vamos comparar uma remessa internacional de US$ 200 usando trilhos de pagamento tradicionais e stablecoins em uma blockchain pública como a Solana.
Custo
- Trilhos tradicionais: 6% a 10% ou tarifas fixas + spread cambial
- Trilhos de stablecoins: tarifa de transação de <US$ 0,01 + tarifas de conversão
Para fintechs, as stablecoins viabilizam serviços globais competitivos e de baixo custo. Para instituições financeiras, os trilhos de pagamento em blockchain reduzem os custos operacionais das liquidações internacionais, o que pode permitir serviços mais baratos para os clientes.
Liquidação
- Trilhos tradicionais: de horas a dias
- Trilhos de stablecoins: finalidade em ~400 ms
A Solana viabiliza aplicativos em tempo real para fintechs, como pagamentos instantâneos e preços dinâmicos, além de melhorar a experiência do usuário. As instituições financeiras se beneficiam de uma gestão de liquidez aprimorada, menor risco de contraparte e um processo de conciliação mais eficiente.
Acessibilidade
- Trilhos tradicionais: conta bancária, infraestrutura física e documentação
- Trilhos de stablecoins: conexão com a internet e carteira digital
As stablecoins e os trilhos de pagamento em blockchain ampliam o mercado total endereçável para todas as fintechs e instituições financeiras.
Interoperabilidade
- Trilhos tradicionais: sistemas isolados, integração complexa e dependência de intermediários
- Trilhos de stablecoins: abertos, sem permissão (na Solana) e altamente combináveis por meio de smart contracts
Ao desenvolver em blockchains abertas e sem permissão como a Solana, as fintechs podem usar stablecoins para acelerar o desenvolvimento de produtos e promover a inovação no ecossistema. Para instituições financeiras, isso permite integrações com novos serviços de ativos digitais e simplifica determinados processos de backend.
Emissores e tipos de stablecoins
Por trás de cada stablecoin há um emissor, entidade responsável por sua criação (minting), destruição (burning), gestão de reservas, garantia de resgate e conformidade com as regulamentações aplicáveis.
A credibilidade e as práticas do emissor são fundamentais para a confiabilidade da stablecoin. Entre os principais emissores estão Circle, Paxos, Tether, Brale e M0 Foundation.
O cenário das stablecoins é diversificado, com diferentes tipos classificados principalmente pelo mecanismo usado para manter a estabilidade de preço, ou "paridade". Entender essas diferenças é essencial, pois a estrutura subjacente afeta significativamente o perfil de risco, a transparência, a situação regulatória e a adequação de uma stablecoin a diferentes casos de uso.
Stablecoins lastreadas em moedas fiduciárias
Essas stablecoins são o tipo mais comum. Elas mantêm sua paridade por meio de reservas de uma moeda fiduciária específica — ou equivalentes seguros e altamente líquidos, como títulos públicos de curto prazo — com valor igual ou superior ao das stablecoins em circulação.
Alguns exemplos são USD Coin (USDC), PayPal USD (PYUSD) e Tether (USDT). Seu domínio sugere uma preferência do mercado, sobretudo entre usuários institucionais e aqueles que buscam menor risco, por modelos semelhantes às estruturas financeiras tradicionais e que oferecem transparência por meio de reservas auditadas.
Stablecoins lastreadas em commodities
Essas stablecoins são lastreadas por reservas de commodities físicas, geralmente metais preciosos como o ouro. O valor da stablecoin é vinculado ao preço de mercado da commodity subjacente.
Alguns exemplos são Paxos Gold (PAXG) e Tether Gold (XAUt).
Stablecoins lastreadas em criptoativos
Elas mantêm a paridade por meio de reservas de outras criptomoedas. Como o próprio colateral pode ser volátil, esses sistemas normalmente exigem sobrecolateralização — ou seja, o valor dos criptoativos mantidos em reserva supera significativamente o valor das stablecoins emitidas, por exemplo, em 150% ou mais. Smart contracts costumam gerenciar automaticamente os níveis de colateralização e os processos de liquidação.
A Dai (DAI), da MakerDAO, é um exemplo de destaque.
Stablecoins algorítmicas
Essa categoria utiliza algoritmos — protocolos de software — para gerenciar dinamicamente a oferta da stablecoin em resposta à demanda do mercado, com o objetivo de manter o preço estável em torno de sua paridade.
Elas se mostraram mais complexas e potencialmente menos estáveis, com falhas notáveis, como a da TerraUSD, afetando a confiança do mercado nesse modelo.
Melhores blockchains para stablecoins
Selecionar a plataforma de blockchain adequada é uma decisão estratégica essencial ao desenvolver ou utilizar stablecoins.
A escolha entre redes sem permissão — ou seja, abertas a todos os participantes — e redes permissionadas, com acesso restrito, define fundamentalmente as características da solução de stablecoin: o grau de descentralização, a acessibilidade, a estrutura de governança, os recursos nativos de conformidade, os custos de transação, a velocidade e muito mais.
Blockchains sem permissão
Blockchains sem permissão, como a Solana Mainnet ou a Ethereum Mainnet, oferecem acesso aberto: qualquer pessoa pode desenvolver aplicativos, emitir tokens — conforme as regras da plataforma — e participar da rede. As fintechs costumam escolhê-las porque podem desenvolver e iterar rapidamente, além de alcançar mercados amplos sem precisar da aprovação de uma autoridade central.
A Solana, em particular, alcança um throughput de transações muito alto — atualmente superior a 4.000 transações por segundo em produção, com capacidade teórica de 65.000 —, liquidação em cerca de 400 milissegundos e tarifas de transação extremamente baixas.
Esses atributos tornaram a Solana uma opção cada vez mais popular para implementar stablecoins e desenvolver aplicativos de pagamentos de alta frequência, protocolos de finanças descentralizadas (DeFi) e serviços voltados ao consumidor.
Historicamente, a Ethereum Mainnet enfrenta desafios significativos de escalabilidade. Sua popularidade costuma provocar congestionamento da rede, resultando em tarifas de transação elevadas ("gas fees") e tempos de confirmação mais longos.
Os rollups, soluções de Layer 2 da Ethereum, foram criados para processar transações em uma camada separada e enviar periodicamente dados compactados de transações e provas de estado de volta à Ethereum Mainnet.
Blockchains permissionadas
Blockchains permissionadas operam com acesso restrito e exigem autorização para participação, validação de transações e, muitas vezes, governança. Esse ambiente controlado oferece diversas vantagens, especialmente para entidades reguladas, como instituições financeiras que desejam usar blockchain, mas têm preocupações relacionadas a segurança, identidade e regulamentação.
Entre os principais benefícios estão a segurança reforçada por validadores conhecidos, a capacidade de implementar recursos robustos de conformidade no nível da rede — como verificações KYC/AML —, maior controle sobre a privacidade dos dados e estruturas de governança personalizadas.
A Spherenet é uma rede blockchain permissionada desenvolvida em colaboração pela Sphere e pela Anza, criada com base em uma versão modificada da Solana Virtual Machine (SVM) de alto desempenho.
A Spherenet foi projetada especificamente como um ledger compartilhado e em conformidade para que entidades financeiras reguladas do mundo todo realizem pagamentos e liquidações internacionais, oferecendo uma alternativa altamente eficiente e auditável ao sistema bancário correspondente tradicional.
Outro exemplo é a Kinexys, plataforma blockchain permissionada e proprietária do JPMorgan que facilita transferências interbancárias e liquidações cambiais (FX) 24 horas por dia, 7 dias por semana e quase em tempo real para seus clientes institucionais e corporativos.
Casos de uso e aplicações de stablecoins
Fundamentalmente, a promessa das stablecoins está em sua capacidade de resolver as principais ineficiências dos trilhos financeiros tradicionais. Desde a infraestrutura essencial que sustenta todo o ecossistema até aplicações específicas que transformam a forma como empresas usam criptoativos, as stablecoins estão na vanguarda da inovação financeira.
Redes de pagamentos
Desenvolvidas especificamente para facilitar transações com stablecoins, muitas vezes com foco em conectar ativos digitais às finanças tradicionais ou atender a necessidades institucionais específicas
Exemplos:
- Spherenet
- Circle Payments Network
Rampas de entrada e saída
Serviços que permitem aos usuários converter moedas fiduciárias — como dólares americanos e euros — em criptomoedas, incluindo stablecoins, e vice-versa.
Isso normalmente envolve o uso de métodos de pagamento conhecidos, como transferências bancárias, cartões de débito ou cartões de crédito, conectados a carteiras para comprar ou vender ativos digitais.
Exemplos:
- ZarPay
- Sphere
- Moonpay
- Bridge
Pagamentos
Folhas de pagamento globais, pagamentos a fornecedores e repasses a freelancers realizados mundialmente e de forma imediata, simplificando as operações e oferecendo aos destinatários acesso mais rápido aos rendimentos em uma moeda potencialmente mais estável.
Exemplos:
- Modern Treasury
- MuralPay
- Deel
Remessas internacionais
Pagamentos internacionais que impulsionam plataformas de pagamentos B2B voltadas a importadores e exportadores, soluções globais de tesouraria e instituições financeiras que oferecem operações internacionais para atrair e reter clientes.
Exemplos:
- Stripe
- MoneyGram
- JP Morgan
Aplicativos dedicados
Levam os recursos de pagamento com stablecoins diretamente aos usuários finais, aproveitando blockchains sem permissão para obter maior alcance e efeitos de rede.
Exemplos:
- Paypal
- Venmo
- Coinbase
Cartões
Emitidos em parceria com grandes redes como Visa ou Mastercard, permitem que os usuários gastem suas stablecoins em milhões de estabelecimentos comerciais no mundo todo que aceitam pagamentos convencionais com cartão.
Exemplos:
- Fuse (via Visa e Bridge)
- MetaMask
O futuro das stablecoins
O desenvolvimento simultâneo de redes fechadas e privadas (Spherenet, CPN) e aplicativos abertos voltados aos usuários começa a delinear dois caminhos para a adoção de stablecoins: um se concentra em reformas graduais e na integração com o sistema financeiro regulado existente — e com estruturas jurídicas novas e em evolução —, enquanto o outro busca uma inovação mais disruptiva em trilhos sem permissão.
Ambos são necessários para uma adoção ampla, e isso já está acontecendo: os volumes de transações atingiram níveis impressionantes, com a Visa registrando US$ 27 trilhões em volume de stablecoins em 2024.
No entanto, o futuro dos pagamentos com stablecoins talvez esteja menos relacionado a "aplicativos de stablecoins" dedicados e mais à integração invisível dessa tecnologia aos aplicativos conhecidos nos quais os usuários já confiam.
O resultado?
Uma experiência de pagamento simplesmente mais barata, rápida e global que simplesmente… funciona.
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